Morre Solano López, autor do clássico argentino El Eternauta
Faleceu nesta madrugada, aos 83 anos, um dos maiores quadrinistas argentinos, Francisco Solano López, autor, junto com Hector Germán Oesterheld, da clássica série El Eternauta. Criada no final dos anos 1950, a história escrita por Oesterheld e desenhada por Solano López conta a tomada do planeta por alienígenas a partir do ponto de vista dos sobreviventes em Buenos Aires e é talvez a mais importante história em quadrinhos argentina. A mistura de ficção científica e crítica política – é bom lembrar que a Argentina recém saía da ditadura de Perón, em 1955, e a história começou a ser publicada em 1957, na revista Hora Cero Semanal, onde saiu até 1959 – trata com nuances sutis da invasão d’ Eles, extraterrestres com tecnologia muito superior a nossa, que escravizam e submetem os terráqueos sobreviventes ao seu poder.
El Eternauta ganhou sua primeira edição em livro na década de 1960, mesmo período em que chegou a ter uma releitura, desenhado por outro mestre do traço, Alberto Breccia. Em 1976, a dupla original publicou a continuação da história, vista por muitos como ainda mais politizada. Não são de todo desvalidas as analogias da ditadura que assumiria o poder naquele ano com os que escravizam os sobreviventes. Neste momento, Oesterheld já havia aderido à Juventude Peronista, movimento de resistência ao governo militar. No ano seguinte, seria sequestrado, torturado e morto, assim como suas quatro filhas e dois genros.
“Metáfora alucinante do país arrasado, entregue aos interesses externos e dominados pelo invasor”, como consta da apresentação da edição comemorativa dos 50 anos do personagem, lançada em 2007, El Eternauta deve chegar finalmente ao Brasil este ano. Segundo informa Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos, o contrato já está assinado desde o ano passado e as duas primeiras partes saem pela Martins Fontes. O editor Evandro Martins Fontes afirmou a Ramos que a edição brasileira será baseada na versão comemorativa acima mencionada, publicada na Espanha, pela Norma Editorial, em formato horizontal, o mesmo em que foi originalmente publicada. A tradução ficou a cargo de Rúbia Pontes e Sérgio Molina.
Solano López – que morou na Europa nos anos 1960, e chegou a morar no Brasil a partir da década de 1980, onde desenhou o álbum ambientado em uma favela carioca, Sangue Bom (2003), com Allan Alex e roteiro de Patati –, é autor de, entre outros, Aguila Negra, Calle Corrientes, Evaristo. A terceira parte da saga, de 1997, foi feita com Pablo Maiztegui (Pol), e se situa antes do período em que o protagonista se encontra com o escritor para quem narra a sua história. No início deste século, em 2001, o desenhista retomou El Eternauta com Pol. Desta vez, com o enredo ambientado 40 anos no futuro, em uma Buenos Aires reconstruída pelos invasores, onde os sobreviventes foram levados a crer que a invasão de outrora havia sido pacífica. Crítica não mais à violência e covardia militar apoiada pelo imperialismo ianque, mas à crescente manipulação das massas, através da alienação midiática e do cassino financeiro internacional a perpetuar a dominação dentro da democracia. Nada mais atual.
Solano López faleceu nesta madrugada de sexta-feira, devido a complicações de uma hemorragia cerebral, causada por uma queda no hospital onde se recuperava de um AVC. Talvez a conhecida frase de seu parceiro Oesterheld seja um bom epitáfio para ambos e uma sugestão para os que vivem nestes turbulentos tempos: “O único herói é o herói em grupo, nunca o herói individual, o herói solitário”.










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